“Era uma vez um soldadinho de chumbo que havia sido esquecido em uma velha loja. Um dia, um homem comprou o soldadinho de chumbo e o levou para casa, só que ele tinha se apaixonado pela bailarina…”
Reinos distantes, florestas mágicas, brinquedos e animais falantes. O universo criado pelas histórias infantis transporta o leitor para outra realidade, onde cabe tudo o que a imaginação quiser. Cativando até mesmo os adultos, a literatura infantil trabalha com características próprias das crianças, como a curiosidade, a fim de atrair a atenção dos pequenos para temas do mundo real. A psicopedagoga Cynthia Novaes atua na área de educação especial na rede municipal de ensino no Recife, capital pernambucana. Nas aulas, ela utiliza a leitura e a contação de histórias como recursos didáticos, e explica que eles ajudam as crianças a desenvolver e entender emoções e sentimentos de forma significativa. “Isso fica evidente quando a criança responde com sorrisos, com carinha triste, no decorrer da história. É um momento em que a criança brinca, interage, vivenciando com os personagens aquele momento de humor, aquele momento de tristeza. É uma ferramenta mediadora para ajudar a criança a resolver os conflitos que elas passam a vivenciar.”
“Certo dia, o soldadinho de chumbo caiu pela janela. Ele passou pelas ruas, pelo esgoto, e foi parar no mar. Parou na boca de um peixe.” Além de estimular a criatividade e a imaginação, as histórias infantis também reproduzem noções de ética, moral, empatia e amizade. Essa característica foi introduzida pelo escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, cujo aniversário, em 2 de abril, marca o Dia Internacional do Livro Infantil. É de autoria dele histórias como A Pequena Sereia e O Soldadinho de Chumbo, narrado por Maria Luisa Barros de Oliveira, de sete anos, ao longo desta reportagem.
Andersen adaptou a linguagem das fábulas para o universo das crianças, abordando temas como autoestima e respeito às diferenças, como no Patinho Feio, escrita por ele. A pequena Maria Alice Gomes de Souza, de quatro anos, conta a lição que aprendeu com a historinha. “Ninguém pode rir dos outros, senão ninguém vai brincar. Então a gente não pode maltratar ninguém. E se chegar um amiguinho novo, eu ia tratar ele como eu trato todo mundo.”
No Brasil, os livros adaptados para os leitores mirins surgiram no século 19, e ganharam força a partir de 1920, com a obra de Monteiro Lobato. O criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo é reconhecido como o pai da literatura brasileira para crianças. É no aniversário dele, em 18 de abril, que o país celebra o Dia Nacional do Livro Infantil. Um século após seu lançamento, as aventuras de Pedrinho, Narizinho e Emília continuam encantando adultos e crianças, como o estudante Sávio Gabriel, de dez anos. “Eu acho legal porque, tipo, sempre tem um pouco de comédia pra alegrar. Nunca tem uma parte triste – sempre quando tem, é brincadeira. Eu gosto do Rabicó, Pedrinho, e um pouco do Saci. Eu gosto do Rabicó porque ele come que nem eu – eu adoro comer – e também, tem algumas partes, na maioria que ele aparece, ele é engraçado.”
“Uma senhora comprou o peixe e o levou para casa. Quando ela abriu o peixe, o soldadinho de chumbo estava de volta ao lar.” A importância da leitura para o desenvolvimento cognitivo, de escrita e fala para as crianças é de conhecimento geral. Mas em tempos de tv, celular e tablet, é possível um livro ganhar essa competição? A psicopedagoga Cynthia Novaes dá dicas para incentivar o gosto pela leitura. “O conselho que eu posso dar aos pais é que eles deixem, realmente, a criança sentir os livros, não ter medo que eles rasguem. Livros bem coloridos, com gravuras grandes, ler histórias pra eles dormirem, faz perguntas… Dar um presente, mas dar um livro também, inserido nesse presente.”
O papel do Estado no oferecimento de espaços para acesso e fomento à leitura também precisa ser levado em conta. Em 1994, um manifesto publicado pela Unesco reconhece a biblioteca pública como a porta de entrada para o conhecimento, e coloca, em primeiro lugar, a missão de criar e fortalecer os hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância.
Em Pernambuco, a Assembleia Legislativa criou, em 2015, o Prêmio Prefeitura Amiga da Biblioteca. A premiação é uma forma de reconhecer os municípios que promovem a instalação e manutenção de bibliotecas públicas e escolares, de acordo com o presidente da Comissão de Educação da Casa, deputado Romário Dias, do PSD. “No momento em que você faz a prefeitura amiga da biblioteca, e a biblioteca amiga da população, em todos os municípios, você faz com que as pessoas se interessem a ler. E nós queremos montar uma estratégia para que as pessoas que tenham suas pequenas bibliotecas, que não estão mais interessadas em ler aqueles livros, que façam uma doação à biblioteca pública do município, para que essa biblioteca seja de grande utilidade, para a juventude ler e aprender cada vez mais.”
Clássicas ou contemporâneas, as histórias infantis ocupam um lugar especial na literatura, na memória e no coração das pessoas. São delas as primeiras viagens sem sair do lugar. Inspirações para brincadeiras e fontes de conhecimento, a leitura e a contação de histórias, além de divertidas e prazerosas, contribuem para a formação de cidadãos mais seguros de si, personagens do próprio “era uma vez”.
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